domingo, 8 de maio de 2011

Cinzas

Estava quase amanhecendo e do outro lado do tropico de câncer já deveria estar acontecendo um equinócio, o céu deste lado da América estava encoberto por nuvens que apontavam a possibilidade de um dia chuvoso, a névoa deixava o vidro do carro completamente embaçado. Os limpadores de para-brisa já não limpavam. Já eram quatro horas da manhã.


Passei a noite em claro dirigindo, o volante pesava em minhas mãos. Liguei o rádio, mas a sua programação estava destinada a um country que me aborrecia, tentei trocar diversas vezes de estação. O rádio apenas produziu alguns chiados depois de muitas tentativas. Abruptamente senti uma pressão, o carro parou bruscamente, o aquecedor desligou e os barulhos cessaram.


- Droga – murmurei irritada, esmurrando o volante, sem perceber acertei a buzina e o motorista que passava pela rodovia olhou-me com curiosidade.


Catei minha blusa de frio jogada no banco de trás do new beetle abri a porta e desci cuidadosamente, sem produzir nenhum ruído. A névoa envolveu-me quase de imediato, já não era capaz de ver a própria estrada cinzenta, caminhei alguns passos no rumo que acredita ser o acostamento.


Tateei o celular no bolso da calça, não havia nenhum sinal, cruzei os braços e comecei a andar sem ritmo ou vontade pelo frio, alguns motoristas que passavam, questionavam se eu desejava uma carona, educada, eu respondia que não, seguindo o caminho. Mais tarde compreendi o fato de que poderia estar no carro de qualquer um.


A névoa ia se desfazendo aos poucos de forma egoísta, ela desaparecia dando espaço para um sol radiante, que queimava e fazia derreter pequenos flocos de gelo na encosta da pista. A luz clareou a floresta ao redor da estrada, observei uma cabana com cores desbotadas e aparência de abandonada.


Meus pés tomaram a pequena trilha que levava até a casa, a cada passo reduzia a distancia e aumentava meu receio. Minha mente arquitetava uma simples rota, eu deveria ir até lá pedir ajuda, caso não obtivesse esperaria por horas e com alguma sorte a linha de celular voltaria. Chegando próxima a cabana deparei-me com as janelas abertas e uma música suave. Olhei para o chão. As folhas arrastaram-se como se dançassem, bati na porta e aguardei pela resposta, porém ela não veio.


- Tem alguém ai? – questionei, subindo os degraus da escadaria que faziam ruídos assustadores.


Caminhei pela área esperando que alguém saísse de dentro da cabana, aguardei em vão. Olhei pela janela, mas o vidro estava embaçado pelo frio e não vi nada. Andei na direção da porta e bati de novo, até cansar, foi então que decidi adentrar.


Assim que coloquei a mão na maçaneta ela girou e um estalo se misturou com o som da música vindo do interior do recinto. Assustei-me pulando para trás e tirando a mão da porta, que se abriu dando lugar a um rosto desconhecido, mas encantador.


- Posso ajudar-lhe senhorita? – a voz soava calma e vinha do desconhecido. Seus olhos eram azuis como um dia de primavera, seus cabelos tinham uma tonalidade castanho-avermelhada. Ele era alto e belo.


- E...E...Eu preciso de ajuda. – murmurei incoerentes as palavras sem conseguir raciocinar, fitando-o. O desconhecido emanava algo que me fazia sentir que estava em queda livre – Meu carro quebrou na estrada, não encontro sinal no celular, tem um telefone que possa me emprestar?


O homem sorriu gentil, tocando minhas mãos e beijando-as educadamente.


- Desculpe não tenho telefone, porém posso ajudá-la entre, por favor.


A resposta de meus pensamentos era clara, bastava eu rejeitar o pedido, contudo meus lábios se contorceram e sussurraram um “sim”. O homem puxou-me cuidadosamente para dentro da casa, mantinha em sua face um sorriso, minhas ações começavam lentamente a afastarem-se dos meus desejos. Ao adentrar a casa assustei-me, ela era maravilhosa. As paredes tinham papeis bordô, não havia divisões o que tornava todos os cômodos visíveis.


- Não me disse seu nome – falei sendo surpreendida por minha voz tão normal.


- Hector.


Hector, repeti mentalmente. Observei que o homem não possuía sotaque americano, isto chamou minha atenção, o lugar era uma região pouco habitada, mas os moradores eram reconhecidos pelo sotaque.


- Bebida?


Hector questionou-me, assentando-se em um dos sofás-cama, que compunham os moveis da sala. Reparei em suas vestimentas. Uma camiseta de gola V azul marinha Calvin Klein, combinando com calça jeans escura e sapatos marrons.


- Não! Obrigada! Preciso ir.


A rapidez dos atos do homem me perturbou, Hector mexia-se numa velocidade inumana, logo nos encontrávamos frente a frente.


- Está tudo bem está segura – Hector cantarolava as palavras em meu ouvido. Os olhos se mantinham fixos, as pupilas dilatavam-se e foi naquele momento que perdi a razão e meu raciocínio lógico pareceu não funcionar mais.


- Sim está tudo bem, estou segura aqui.


Repeti as palavras como um robô. Hector tocou minhas mãos vagarosamente testando minhas reações. Seus olhos eram carregados de emoções e infortúnios. Ele me abraçava deixando que suas mãos tocassem meu corpo fazendo caricias suaves. Aqueles lábios me beijavam sutilmente no pescoço que me faziam perder a “linha”.


- Isto não é certo. – murmurei.


- Está tudo bem – Hector novamente sussurrou. Senti meu corpo se entregar. O local parecia rodar, a sensação era de estar embriagada. Ele tocou levemente minha pele e uma corrente percorreu nossos corpos, fui incapaz de impedi-lo permitindo a ele que retirasse minha blusa.


Hector. virou-me para olhar-me de frente, suas mãos hábeis retiraram uma mexa de meu cabelo solto caindo sobre meus ombros, nossos olhos se fecharam lentamente. Senti aqueles lábios vermelhos nos meus, e nossos corpos colaram-se como em uma dança ancestral.


♥ ♥ ♥


Meus olhos reabriam-se, a “desorientação” era a palavra de ordem. Estava deitada sobre a cama de casal em um canto escuro, apenas de roupas íntimas e sem capacidade de coordenar minha memória. Minha mente demonstrava ter sofrido um colapso. O máximo que pude recordar era de olhos azuis claros e alguns sussurros provocantes.


Coloquei a mão na cama buscando apoio para levantar-me avistei quase de imediato minhas roupas jogadas ao chão. Levantei, peguei e busquei o odor de algum perfume desconhecido, porém tudo que encontrei foi meu perfume de lavandas Elas não estavam amassadas e não havia ninguém no lugar exceto eu.


- Olá? – perguntei após alguns minutos quando já estava vestida novamente.


Andei curiosa pela casa ainda que cercada de medo e dúvidas. Nada! Na casa prevalecia a aparência de abandono. Busquei meu celular, não encontrei. Caminhei lentamente até a janela onde estava um papel pequeno com os seguintes dizeres:


Foi um imenso prazer conhecê-la.


Sem nome, sem assinatura, sem data. Qualquer informação era a mim recusada. Encontrei meu relógio sobre a mesa da cozinha e o coloquei rapidamente no braço. Tirei o bilhete da janela e o segurei firmemente, então assim ainda envolta em sentimentos de medo e angústia sai da casa, ainda cambaleante. Segui a trilha que me destinava direto para a estrada, o sol ainda estava nascendo, os carros passavam apressados foi quando vi meu carro estacionado no mesmo local me virei para trás olhando a velha cabana em silêncio.


Uma senhora vinha andando pelo acostamento, trazia flores vestia-se com roupas de listras prestas e brancas, em seu rosto não havia felicidade nem sequer tristeza, apenas a indiferença. Ela olhava na direção da modesta casa.


- Desculpe incomodar-lhe senhora, mas pode me informar quem mora ali?


A senhora fitou-me assumindo uma tristeza até então desconhecida.


- Meu filho morava ali ele morreu há catorze anos minha jovem.


Aquelas palavras paralisaram. O medo dominava e minhas reações estavam mortas. Agradeci, fitei meu relógio no pulso como se o tempo não houvesse passado ainda marcava-se quatro horas da manhã. Abri a mão que carregava o bilhete pregado na janela, e a surpresa me devastou, em minha mão não havia mais bilhete, somente CINZAS.

Último Guerreiro

As sensações térmicas o tornam desconcertado. Próximo a fogueira ele se impressiona com a noite enluarada. Nosso herói tenta resistir a mais sutil e encantadora das canções, tem uma batida leve e pode ser carregada por um longo período inconstante de graves e baixos. Ele sentia o medo fluir como drogas em suas veias. Sempre próximo de si descansa na bainha sua espada com o fio prateado assustando até mesmo o maior e mais corajoso dos seres. Uma vez em conjunto eles derrubaram batalhões, salvarão inocentes e embebedaram-se de seu código de honra e glória, porém agora tudo perece. Stark não possui mais nada daquilo que valorizava o cavaleiro recua mata adentro assustado como uma presa de um lobo das altas montanhas da desconhecida América. Suas feições são duras e deixam transparecer aquilo que um dia fora chamado de pesadelo, pois nem todos os amigos do mundo poupam-lhe da solidão, nem todas as mais belas mulheres são capazes de despertar seu coração frio e apagado e sua força sequer existe. Stark hora homem, hora herói passa por uma transformação se tornando em um espectro noturno de sua angustia. Seu próprio cavalo o observa amedrontado, seu rei caiu e seu povo amante está morto. A desolação surge do último inimigo. Os passos fazem barulho o denunciando. Stark desembainha a espada apressadamente realizando uma prece silenciosa para que suas mãos sejam guiadas pelo criador bondoso e benevolente.
O homem que encontra por inimigo possui feições cruéis e dissimulada, emana de si a impureza de um homem corrupto, pois há quem diga que a raça dos homens um dia já foi pura. As espadas estão levantadas, os pássaros voam rumo ao céu gralhando assustados. Os pés de ambos movem-se como em uma dança com a mais perfeita sincronia. E o som do metal encontrando-se finalmente. As espadas colidem uma com a outra de lado e do outro com maestria os cavaleiros giram seus corpos tornando a atacar, mas ei que teus olhos lhe enganam sem que prevejas e nosso cavaleio erra o golpe fatal selando de tal forma sua sentença de morte. Seus joelhos se dobram e assim em meio tão simplório que o ultimo golpe desfaleceu. O verde vivido cede seu lugar a escuridão e naquela noite a rainha branca a doce lua chorou com postura pela morte de seu ultimo filho na terra, e a história ah esta há de ser repetida milhares de vezes por lendas vos bardos, pois ainda que um esteja de pé restará esperança.

Sentimentos

O vento percorre a planície carregando todas as imaturidades. As folhas assobiam pelo caminho brincando umas com as outras. Os espíritos percorrem as vastidões entre as solidões e de repente lá estão eles velados em seus próprios sonhos permitindo-se viver, doar-se um para com o outro. Ele com toda sua jovialidade e maledicência, ela com sua ingenuidade e o sabor da realidade para provar. Do céu os deuses invejam pela falta de tempo que ambos têm, pela fragilidade humana que é cobiçada. Quando se tem a eternidade à vida passa a não ser nada além de uma flor sempre a espera do sol para desabrochar. Eles trocam caricias ingênuas e seus lábios volte e meia agem como imãs aproximando-se com tamanha intensidade. O tempo corre sem importar-se com eles é provável que anos se passem e o amor deles desapareça lentamente como neve derretendo-se, porém há também a possibilidade de que o perecer seja eterno e aqueles corações jamais se desliguem. Ao final não importará qual ínfima opção o destino optou, porque por enquanto assim com as ninfas ao redores tudo para eles é apenas o nada.

Eternamente Amigos!

A madrugada desmanchava-se triunfante no Oriente carregada de seus ares rebeldes. A janela aberta induzia-me ao vento livre, o cheiro do campo, aos erros joviais. Liguei a televisão tentando fazer minha mente concentrar-se no real do pequeno quarto com paredes levemente amareladas. Os canais voavam sem informação uteis o controle moribundo caiu de minha mão produzindo um ruído.
Ouvi ao longe o “garoto” em seu cercado de doma relinchando. Sorri ainda que contente. Coloquei minhas botas com canos medianos que cobriam parte da calça jeans velha que vesti rapidamente. Em silencio desci as escadas, abri a porta da casa que rangia reclamando. Tive de chantagear nosso velho e gordo cachorro Toddy com um grande osso.
Corri pela enorme distancia que me separava da doma. A casa agora parecia assustadora com toda sua camada de silencio e áurea misteriosa. Assim que ele me viu relinchou.
- Calma garotão – disse baixo escondendo um riso esperando que ele me ouvisse e não causasse maiores barulhos evitando de acordar assim meus pais.
Meu grande cavalo Mustang aproximou-se. Estiquei a mão em um gesto de boas vindas. Stark cheirou-me então pareceu me reconhecer, pois esfregou seu rosto em minhas mãos como se fizesse um sim com a cabeça.
- Senti sua falta Stark – o acariciei por um tempo tentando aquietá-lo – faça silencio agora sim, vamos dar um passeio.
Ele produziu outro barulho que interpretei novamente como um sim desta vez mais baixo do que o natural. Imaginei se ele realmente compreendia minhas palavras. Abri o celeiro cuidadosamente, tateei a lanterna que carregava sempre em meu bolso do moleton. Passei por alguns cavalos em seus estábulos repousando calmamente.
Corri até o final pegando uma corda fácil de doma, certifiquei-m e de ter fechado bem a porta. Olhei novamente tendo certeza que Charles (meu pai) não havia acordado. Abri o cercado chamando Stark. Ele galopou contente até mim. Selei-o de forma improvisada na escuridão noturna. Acariciei seu dorso já montada sobre ele.
- Vamos lá Stark, confio em você amigo!
Segurei as rédeas controlando sua velocidade e de repente o vento estava em meu rosto parecia entorpecer-me. O frio deixou minha pele arrepiada apesar do grosso moleton preto que usava. Hesitei por um segundo em avançar, mas o amanhecer já mostrava seus lindos raios. Stark galopou mais rápido.
Nossa doce liberdade. A noção de tempo foi distorcida tomada pelas ondas de tempestade, direcionei Stark até o que parecia uma hostil caverna. Sentei-me debaixo da pedra gélida. Stark ficou abaixo da cobertura próximo a mim como meu guardião. Ele olhava compenetrado para o nada.
- E agora? – perguntei alisando sua longa crina.
Ele ergueu a longa cabeça a abaixando depois como se me disse sinto muito. Naquele momento compreendi a ligação que nos unia era muito além do físico homem/animal tínhamos almas selvagens, indomáveis que padeciam do sonho de um mundo próprio. Ali parados na imensa tempestade e cercados pelos raios de luz escuros nos tornamos eternamente amigos.
- Vamos garoto, a chuva já está se esvaindo.
Ele fez um breve sim novamente com a cabeça. Ri suavemente. Montei novamente nele e cavalgamos juntos até que o sol beijasse a terra de forma delicada.

Conquista!

O e-mail chegou ontem exatamente as 12:22 e eu mal podia acreditar. Há algum tempo atrás mandei uma pequena prosa para tentar a chance de ser escolhida e publicada no livro Elas escrevem da editora Andross, e eis que eu acabo por ser aprovada e meu texto irá participar do volume 2. É uma alegria imensa já que isto parece ser o começo do meu sonho, agora aguardo anciosa para ver o livro, porque quando isto acontecer tenho certeza que vai ser o dia mais emocianante da minha vida!